domingo, 1 de novembro de 2009

Sobre os passos:


Nós somos cabeça, troco e membros, lembro-me bem das aulas de biologia, mas não é sobre o corpo humano esse texto, é sobre os passos. Somente. Os pés sustentam o peso do corpo e o corpo se move pelos passos. Acho eu que existem dois tipos de passos: Os que não nos movem, parados passos, e os que formam enormes caminhadas, as pegadas. Os primeiros de dois modos são dados: Primeiro quando alegres demais, quando dentro, dentre e entre ritmos de Música, sentindo-a. Os passos soltos são metrônomos marcando os compassos, os andamentos. Os sentidos sentados sobre o som é tão bom e esses passos tão, tão soltos, não nos levam a lugar nenhum porque os pés só sustentam o corpo, a alma quando quer adquirir asas separa a cabeça do tronco e dos membros. O outro passo parado é dado um atrás do outro, preso. São por causa da pressa, da ânsia, da impaciência e acompanham-se de pausas pra cruzar as pernas. São passos de espera e dor a pisar a demora e geralmente estes passos esmagam os pisos de consultórios. Os pés sapateiam o chão, de sapatos ou sandálias, de pés descalços é melhor pra correr e fazer a bola correr, fazer o gol. Os passos que completam enormes caminhadas também findam efêmeras corridas e às vezes esses passos são silenciosos, às vezes são sapateios, são estalos, outras vezes chiados. São escravos do chão, os passos, os pés ainda não. Eu tenho uma predileção por estes passos, em especifico aos efêmeros, os de corrida. Adoro fazer a bolar rolar nem me preocupo com o gol, fazer o gol. Eu só quero o mundo girando aos meus pés, a cada passo dado o mundo me acompanha e eu vou pisando nele, levanto-o, toco-o pra outro. É o mesmo mundo pra todos, sem essa de ‘cada cabeça é um mundo’, cada cabeça é um passo, um modo de andar, um mundo andante e eles giram, passam.

As marcas do cansaço:

São sete horas da manhã e ainda estou na minha cama e estarei às sete horas da noite no meu sofá da sala. Agora se sento no banco da esquina, espero o ônibus, onde outrora troquei beijos. Depois das oito tanto faz se ele virá lotado, contrariando a lei de Newton, tanto estou atrasado que me despreocupo em olhar a hora, só basta observar quem vem lá da curva da esquina. Barroquinha, Barra! O ônibus não demora de chegar, mas dessa vez eu queria que demorasse que demorasse demais, queria que houvesse greve dos rodoviários hoje!

É enfadonho levantar e ficar de pé lá a balançar a cada freiada brusca e cada quebra-mola. A cabeça balança, a mão busca apoio pro corpo e eu sento-me no chão. No metal meio quente que é o piso do ônibus, bem em cima das rodas é onde dá pra se sentar. Dali de onde estou, vejo uma criancinha, há aquela ausência de cansaço nela, e nessa criancinha uma cara de assustada. Ela se apóia em mim por um instante e sua mãe a agarra, a sua mãe a aperta ao peito e toma um lugar no banco do coletivo de um desses estudantes universitários. Via-se pela mochila emblemática e o estereotipo. Eu não poderia ceder meu lugar e sinceramente nem sei se cederia, sendo eu o dono de um assento destes de ônibus lotado.

Abaixo a cabeça, ponho em cima da minha mochila, mas não durmo não, não consigo! Ali não, numa cadeira sim, dormiria assentado com a cabeça no vidro da janela. Já estava a sonhar acordado com um lugar nesse ônibus fedido! Então decido levantá-la, a minha cabeça pesada, e de cabeça erguida passo a olhar as pessoas sentadas. Há uma senhora dormindo do jeito que eu sonhei, a sua cabeça estava encostada na janela e do lado de fora um caminhão passando e a bordo dele, na caçamba, homens indo se cansar numa das obras grandes da cidade crescente. Eles começam a gritar: - Acorda mulher! Acorda! A senhora trazia as marcas do cansaço, antes mesmo do serviço ela estava dormindo numa cadeira de coletivo como se estivesse numa cadeira de balanço e de fato a cadeira balança a cada quebra-mola e a cada freiada brusca. A senhora não acorda, acho que ela estava sonhando, mas será que os seus sonhos balançam?

Os meus sonhos não… Meus sonhos voam, planam… Enfim, levanto-me e tomo meu rumo, tomo muito ar, suspiro, cansei do sono, só não me cansei de sonhar… Suspiros…

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

ESSE TEXTO É FEITO PRA VOCÊ NÃO LÊ-LO.

Tomo café preto e o papel branco aguarda silencioso a xícara se encher de vento e eu aguardo o vazio da solidão para poder eco haver. Ecos. Pensamentos gritantes, pensadas palavras, palavras, palavras, são elas tudo: pensamentos, sentimentos, coisas. São coisas, as palavras. Os ecos começam Mansos, acariciando os ouvidos e a boca do estômago. Mudos ecos, ecos meus. Palavras se repetem e repetem e remetem a outras palavras, seus ruídos repassam a freqüência dos roncos, remontam o silêncio e outras palavras preciosas se pronunciam, surdas, soberbas, pedantes, pernósticas, essas acham que não têm sinônimos, mas têm, porque não há algo escrito que não se equivalha a outro significante e a um mesmo significado, por isso as palavras são palavras.

As papilas da minha língua amargam o gosto do café, apesar de ser doce a vida e apesar de salgada a sua valia - amargor é preciso… Só isso de ser doce a vida, verdadeiramente não convence - E a insossidão? Não existe? Afinal há ou não há? As formas gráficas castradas aceitam as fôrmas, mas eu decidi cruzar os verbos, promover incestos etimológicos, oscular as consonantais letras com as vocálicas e estremecer os vocábulos formais e moralistas. As línguas aglutinantes se lamberão com algumas analíticas e essa minha metáfora metalingüística-literária atrairá prazeres aos leitores mais letrados…

Por outros lados, os campos dos hemisférios cerebrais serão ceifados como os cereais são e todos intelectuais hão de colher lavras de palavras de seus cerebelos, perdendo ainda mais os cabelos. Os tolos só verão as safras de sinonímias e esperarão a estação da primavera pra pegar as mais significantes palavras, sem saber que no verão e no resto do ano a plantação das palavras são iguais. Quem as planta usa a mesma semente, sem sentido, sem substância, a mesma semente sempre. Eles escrevem metonimicamente… Explicam tudo tautologicamente e nada sabem, nada sentem sobre as singularidades Tampouco sobre as pluralidades e desdenham as peculiaridades. São eles inomináveis…

sábado, 20 de junho de 2009

O CAUSO DO SÁBIO CEGO ZÉZIM:

Ao lado do homem velho de lentes pretas, senta-se o moço mais matuto do município! Ambos na beira da bancada da rural que balança sobre a estrada esburacada. Dança de caboclos! Povo da caatinga! Cansaço na cara amuada, anseio na alma. A seca e o menino muito matuto, calado, do lado do homem velho de lentes pretas. A chuva e o chão, depois de uma estação, sentindo de novo a água. A noite e o vagão vazio. Vagas na pequena bancada da caçamba de gente, antes lotada. Ambos sozinhos, nos caminhos escolhidos. Mesma estrada…Uma gota d’água de repente cai no piso da carroceria, bem entre os dois. Uma primeira lágrima, eu diria! Daí começa uma goteira. Um choro. Digamos. A chuva termina, mas o teto continua. Lastima-se? Esta sertânia da Bahia está satisfeita agora, embora o rapaz não esteja. A estiagem vem e se estaciona nessa noite serena e o silêncio surdo se sacramenta. A goteira, perene, pinga, pinga,pinga: goteja e batuca na madeira. Agonia...

- Por causa daquela falta de chuva eu adiei todo dia aquele velho trabalho, e ainda não tapei os buracos no meu telhado. Aquelas telhas velhas…Agora deve de ta tudo molhado, não é mesmo meu velho?

Emudecendo o silêncio diz o simples sertanejo, infeliz no momento, mesmo com o bom tempo chuvoso. E antes de qualquer resposta ou reação alheia, ele acrescenta uma frase:

- Vivendo e aprendendo!

E a voz atroz e afável fala:

- Sabedoria não é viver pra aprender. É aprender a viver…

Sem se mexer, sem movimentar não mais que os músculos da boca e da face, alarde o homem de lentes pretas. Trava-se um diálogo desde aí então. Em um percurso íngreme e pedregoso demais a rural sobe se sacudindo; sambando. Enquanto eles conversam.

- Sei... Mas é com a vida que se aprende e com a morte também, né?

-A morte ultrapassa a racionalidade
Apesar de ela ser a certeza maior.
A vida, ela é racional e racionada
Aja para não morrer, viva e acabô

-Pra morrer só basta estar vivo, mas, e pra viver?

A vida não é questão de escolha
É só questão de atitude.
Não escolhemos como nascer
Nem tampouco nascer
A gente nasce e é só...

O menino medita nas idéias do velho cego que não pode ver, porém tanto sabe sobre viver. E ele se lembra de seu problema, ao ouvir o pling-pling, dos respingos na pequena poça sob aqueles quatro pés sujos. Pensa o quão é pequeno seu problema diante de uma morte. E o velho completa, parecendo que lia seu pensamento. O menino se espanta, esquia-se...

- A vida acaba quando for à hora
Agora ou nunca, nunca se sabe
Atitudes a parte, você pode ser:
Algoz ou alvejado
Abatedor ou abate.

-Quer dizer que a gente é o que a gente faz?

-Nós somos o que fazemos e o que falamos. E mais: Por vontade temos o que gostamos, apesar de podermos ter o que não nos agrada...

- Nossa! Aonde o Sinhô aprendeu tudo isso? Tu deve ter lido uma biblioteca!

- Sabedoria não é ler uma biblioteca. É escrever um livro

- Hum...Muito esperto, desse jeito você pode ganhar dinheiro, porque livro é tão caro, então vender muitos livros deve de dar muitos lucros! E comprar uma biblioteca deve de dar prejuízos. Malandragem essa de escrever livro viu!

- Sabedoria não é malandragem
E nem querer levar vantagem
Ser sábio é a maior vantagem...

A viagem tem sido vagarosa, parece que o motorista anda de ouvido na conversa. Contudo as rodas da rural não deixam de rodar e rolar em descidas e subidas. Elas atolam, mas não param. Eles param um minuto a prosa pro motorista poder perguntar, aonde vão parar, pois a muito que o coitado já acenava e os dois não paravam de prosear.

- TRINCHEIRAS! As duas vozes se misturam. A do menino mais gritante.

-Vamos soltar no mesmo lugar! Ganhar mais um instante aqui com o Sinhô, pra mim, vai ser de muito aprendizagem.

O rapaz fica sorridente demais, talvez pela coincidência de estarem indo para o mesmo canto e talvez também porque dê para aprender mais um tanto nos balanços que restam.

- E sobre o Amor? O que você me diz?

-Vou te cantar uma música, que conta um causo acontecido por umas bandas da Bahia... E foi uma história de Amor

“Minha rosinha deu adeus e foi embora
Pensando Ela que por isso eu vou chorar
A tardizinha quando eu caio na dança
Rosinha traz lembrança
Eu tenho outra em seu lugar
Cachaça boa eu só tomo Cariri
Só bebo ela somente pra distrair
Mas ô mulher, por favor, num me aborreça,
Deixa eu beber, deixa eu tombar, deixa eu cair
Quando passar um caixão na sua porta
Mas ô mulher, não pergunte de quem é
Mas foi um homi que morreu embriagado
Apaixonado pelo amor de uma mulher
Apaixonado por causa de uma mulher”

-Mas isso é uma história de Amor? Morte no final?

-O Amor é a vida e na vida há final ou perpetuação, não sei, só se eu morresse pra saber.Também não tem como saber sobre o Amor sem se amar, sem amar. Ame!

O menino esperava uma narrativa de uma história de Amor imortal, imaginava uma cantiga medieval, na verdade. Mas foi-se o tempo do amor idílico, hoje o amor é mais etílico; é embriaguez; é ilusão, e ele é bom por causa disso! De verdade vamos todos morrer, porque a morte faz parte da vida e o amor faz parte da morte. Se mata, se morre e se suicida em nome dele! Dizem que o Amor é cego, e um cego dizendo o que é o Amor, o que seria então? Parecendo que conhecia cada segundo do caminho, que tinha medido o tempo das palavras o homem de lentes pretas se cala quando nas Trincheiras o carro para. A história termina aí, o jovem ajuda o cego a descer, agora calados, SILÊNCIO. Sono. Já era noite no sertão.

Pra que lado você vai?

- Pra lá!

Aponta para o nordeste o dedo da mão do sábio, e completa:

- Eu sei o caminho... Aqui não preciso de olhos como guia. A minha bengala é benzida por Santa Luzia!

- Acredito... Mas me responda uma coisa… Como você sabe dessa história toda, da Rosinha, quem te contou? Como você soube tudo isso, Cego Zezim?

Eu vi!

Viu!?

É... Eu por acaso não nasci cego não, mas isso aí já é outro causo e eu conto quando você estiver mais sábio. Em outra viagem...

quinta-feira, 11 de junho de 2009

“ UM ILHÉU AO CÉU ”

“ Pra quem crê no que é incrível não devanear em vão”
Chico César e Carlos Rennó - Experiência

Sucumbi ao sabor de um alambique qualquer empoçado numa garrafa de licor, cor de barro. Despenquei em outra realidade. Onírica! Um poço de ilusão e uma cachoeira de cinzas vindas da nascente-brasa. O Oasis da miragem do Deserto dos Delírios em minha casa! Desvalidava o que via. Acordava do sonho acordado. Sonâmbulo?

Um ilhéu ao céu. Esse foi o lugar em que meu supra-consciente pode me levar. Nem um arquipélago, nem um atol, recife ou ilha. Um ilhéu. Uma porção de chão cercada de nuvem e azul transpirante. Um ilhéu ao céu.... Um copo de gole de mé, lá é de graça, dá num pé de cachaça só visto lá. Nem em São Saruê teve o que tem lá plantado. São não sei quantos mil metros quadrados do verde da verdade e mais de dez mil pés de altura têm os picos enevoados! Nas jazidas, pretas pedras cintilantes. As Ametistas e os Ônix, minerais preciosos dos mais azeviches, não se similarizam, nem assemelham a estes. Como na história de João e Maria, no ilhéu ao céu é tudo muito doce, contudo, as trilhas não são armadilhas, elas lhe levam a jardins...

Não há lugar como esse. Chuvas são desnecessárias, secas são supérfluas. Ressacas sancionadas e excessos ínfimos. Sentimos somente boas sensações. Monções quentes e ondas massageantes. A terra não treme, anda, voa. Os ilhados são mais passageiros do que habitantes. Os visitantes são mais viajantes do que turistas. Não há sóbrios políticos nesse território alado. Sórdidos governantes, sábios de leis e ordens e progressos. Não há sequer um mendigo, famélicos da terra, nem servos ou amos quaisquer. Reis, monarcas reais, nunca houveram. Todos têm pés no chão nesta terra mãe, apesar da cabeça nas nuvens, todos têm casa, coração e liberdade. Cidade de chocolate, onde as paredes podem ser lambidas, mordidas, e de diabete ninguém morre. Na feira todo dia se vende poesia, melodia e harmonia, sem balburdia alguma. Uma comuna armada de flores pretende implantar esse doce regime com o plano de fazer uma grande greve entre os soldados e generais. As forças amadas tomaram o poder...Vai haver um afago de estado!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A CHUVA QUE NUNCA PASSOU:

As mãos sujas de água, a cidade de desejos, imunda de uma chuva que nunca deixa as ruas enxutas. Às vezes um chuvisco de uma chuva que não dá descanso. Uma chuva...Há tempos não se via, do alto de onde fosse, cabeça alguma que fosse; via-se uma onda de círculos pretos, brancos, coloridos, grandes como que para várias cabeças. Não se via semblantes. Eram só guarda-chuvas. As sombrinhas se extinguiram, só as criancinhas de menos de nove anos usavam e até faziam brincadeiras com elas que andam em falta nos mercados. Nos andares mais altos dos arranha-céus agora estão os centros comerciais, se quer comprar comida que não esteja molhada e roupa que esteja seca, tende ir pra lá. A cidade sólida sofre anos e a água se infiltra nas paredes, amolece as telhas, entorta as telhas, encharca a terra, a terra erode, escorre pedras pela ribanceira, mais uma casa cai na cidade...Caem casas a cada dia que passa. A chuva não passa. As pessoas não se abraçam mais. afastadas pelos guarda-chuvas. Os mais corajosos objetos. Gotas tóxicas. Mas quem guarda a chuva são as nuvens, não os guarda-chuvas! Veja só: uma estrutura em forma de vapor flutua, flutua só enquanto suporta o peso dela mesma, mas num momento o peso é muito, e assim como a terra, a nuvem cede e despencam gotículas de água novamente frias. Todos os dias são um milhão de nuvens dessas. Todas feitas por fábricas, máquinas, soma de engenhosidades e tecnologias. Todos os dias nos jornais se publícam os índices pluviométricos, a previsão meteorológica, a calamidade pública. As casas caem. A chuva nunca passa. Poças pela sala do barão, infiltração pelo teto do apartamento, umidade e frio aconchegantes. Agasalhos: gorros, luvas, echarpes e casacos. Guarda-roupas repletos de panos. As camisetas são doadas para as pessoas desabrigadas não serem também descamisadas. As enchentes pelo centro da cidade e o toró pela cidade toda. Cinza na cor do teto do chão. O som dos pingos, com o dos passos se mistura e é como se sempre tivesse alguém com pressa. Mesmo na mais leve garoa, que precede as poças e procede as tempestades, que na verdade não tem fim, não tem bonança. Desde que começou a chover nunca mais parou. O mar vai virar sertão porque tudo vai virar água e será a superfície um despido deserto de azul. Deserto gélido. Os arranha-céus, oh céus! Se a Torre de Babel não conseguiu, eles também não conseguiram te tocar. Destino igual. Viraram pedaços de pedras. O sertão vai virar mar, pois São Pedro já pôs ordem no céu e deu seu parecer. Os mais crentes ou carentes acreditam que deus deve ter feito isso. Eu acredito que é defeito de fábrica, algum desajuste em alguma peça na máquina do tempo. A chuva que nunca passou continua constantemente a molhar e a água pesada a cair . Pranto seco sem soluço. Pêsames sem o sol.

terça-feira, 19 de maio de 2009

O MENINO...

Nunca tive muito dinheiro no bolso. Odeio o peso das moedas, o peso que elas fazem no bolso, o odor que deixam nos dedos, apesar de adorar brincar de malabares com uma delas. Dou um peteleco com o dedão na ponta do objeto, que gira como uma daquelas claves de malabaristas e cai na palma da mão, da outra mão, enquanto estou andando…

Passos apertados. Sapatos sem palmilhas. Pés sem meias. A rua rói os cadarços soltos. Sinto saudade das sandálias; das ruas menos ásperas, com menos britas e mais barro. Ruas livres. Estáveis endereços, onde eu descalço andava. Menino na rua: Afogo os olhos nas ruas mais ásperas. Meninos menores que não podem brincar de nada! Nunca tiveram nenhum controle em suas mãos, mesmo que remoto. Moedas dadas ao lucro da locadora por horas de diversão, também não. O real do pão. O vício. Jogos virtuais... Menino no mato: Afagos naturais. Abraço a mangueira e a amendoeira. Abraço hospitaleiro. “Bem vindas ao Brasil brasileiro!”. Elas vieram da Índia e da Malásia. Sabia? Tão longe. Além...

Nunca tive longas viagens. Aonde mais longe fui, foi ao sertão, além da metrópole. Lá montei a cavalo e o maltratei com a rédea e a cela. Lambi os dedos melados de rapadura, amolecida, catei coco, nicuri, comi milhares deles e me satisfiz. Deus fez esses cocos pra nós: meninos. A rapadura não. A cidade, o homem fez para o homem! Aqui os meninos catam o que comer em outdoors, pois, por sobre o chão, só britas têm. E por cima delas, tem gente que vem montada com cem cavalos de potência por hora. E tem gente com tênis velhos, melados de excremência, encardidos sapatos que calçam os pés sem meias. Pés cansados. Cadarços sem nós…

Bolso vazio. Boca cheia. Guloseimas como troco. Mais cáries. Meninos no mundo: na Malásia, na índia ou no Brasil. Eternos Erês. Retorno de homens grandes. Todos caçulas. Todos os que não sabem dar laços, todos os que não sabem ler, todos os que não retornam com o troco do pão e só querem ser grandes.Só querem ser homens endinheirados. Só querem ser homens. Todos serão sempre meninos. Todos...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O HOMEM...

Sentado em cadeiras duras, mas que lhe trazem um certo conforto, com os copos cheios dos diferentes sabores que a liberdade pode dar. Doce como um bom vinho tinto, amarga como conhaque de alcatrão ou fria como a cerveja esquecida no balcão do bar do bairro. O homem se embriaga e vira outro homem. Homens...Bebem e depois dormem...Os bons homens, pois os maus batem nas mulheres... Porém, este não tem maldade. Bebe muito e paga mais. Às vezes faz da sua mesa da sala, mesa de bar, aí é quando ninguém paga a conta. Ele dorme, ronca e só acorda pra mijar. Amanhã tem trabalho, amanhã é sempre segunda. O hoje é sempre igual, vindo depois do ontem e antes do amanhã. Todo dia ele deve despertar sem ressaca. Como homem que trabalha reconhece: Beber para não fazer nada, só com a aposentadoria assegurada. Assim toda manhã será de Domingo. Todo homem merece o descanço. Esse merece demais. Desejo-te dias de gangorra, velho homem. Dias de férias, fora da masmorra que é esse escritório que está, subservientemente sóbrio, a serviço de si e de sua família, sob as ordens dos patrões. Pobre proletário. Pobre, pois sua própria prole o escarnece. Enquanto alguém enriquece. Seu filho , cego ,sem saber, desamadurece quando prefere frequentar outras rodas e sua mulher ,de leve , falece, sofre sem nunca ter tomado um tapa sequer.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

HOJE DE MADRUGADA:

Depois da meia noite é outro dia. É hoje de madrugada. Cães ladram. São os vira latas guardiões das ruas. Cada latido! Cada vez mais alto. Os sons somados acordam o casal. Primeiro o rapaz que até tenta voltar a dormir, mas seu despertar, acaba despertando ela. Que acesa em fogo, ofega e esfrega o corpo quente a fim de um incêndio, de um beijo que fosse a faísca. O fato é que o sono insistente estava o amolecendo e aquela mulher querendo fazer fogueira, naquela hora, aborrecendo-o. Porém, pra ele, todo carinho deve ser bem vindo. A troca de toques começa: primeiro o rapaz põe a mão languida na barriga dela. Na parte mais quente. Ele ainda está frio. A fêmea no cio invade e vai em frente. Enfia uma perna por entre as pernas do homem. Delicada, apenas dobrando o joelho e virando-se já pra cair por sobre o seu peito cabeludo. Ele ainda está frio. Sente que tem algo de diferente hoje na cama.

- Hoje de madrugada vamos tirar o atraso meu tesão! Diz a mulher.

Surpreso com tal investida oral da parceira e considerando certa diferença na voz, começa a desconhecê-la. Na penumbra da noite, que é dia novo, vai reconhecendo outra pessoa. Abruptamente tenta descer da “cama de tatame”. Mesmo com a fêmea desferindo contra a sua carne golpes de apalpamento. Num pulo, ele consegue ligar a luz e por um momento toda clareza o deixa ver a falta de beleza da parceira. Ela era velha, com muitas rugas nos cantos dos olhos, cabelos grisalhos, verdade que esses não são atributos aprazíveis, mas nem por isso que era feia, a velha. A falta de dentes, denunciada pela chapa balançando dentro da boca, dentre o lábio inferior e a gengiva é que o fez por um momento sentir remorso de ter ligado a luz do quarto. Foi uma imagem nítida, que o fez tremer de tanto espanto! Foi quando tremendo acordou nos braços de sua verdadeira esposa. Agradeceu ter tudo sido um pesadelo e beijou-a com a língua em brasa. Acrescentou ao tato força é ao tom de voz um ofego:

- Hoje de madrugada vamos tirar o atraso meu tesão! Disse o homem!

O REFLEXO DO ESPELHO:

"Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas”

(O Espelho, Machado de Assis)


Três homens com elmos de intelecto expunham suas cabeças em uma guerra de egos. Armados com uma cordialidade pedante. Eram outros. Todos tão sábios! Um era aristocrata, daqueles escravocratas, um trovador, daqueles satíricos, e por fim um membro político. Todos tão tolos. Donos da Razão. Egoístas. O espelho, o mais egoísta de todos os seres, intrometendo-se, de repente, começa a falar. É um reflexo diferente para cada um, mas a mesma voz pra todos, é a mesma estória: Estou preso aqui! Me tira daqui! Para o espanto de todos, isso se repetia. Um via um negro com esta voz, outro um parente muito querido e o outro se via, pois, um soldado de milícia lhe aparecia frente aos olhos. E sob o invólucro do espanto, desceram as escadas, todos ainda fora de si. Deixando no espelho aqueles reflexos falando sozinho.

terça-feira, 28 de abril de 2009

A CELEBRE FLOR:

“Martinha não distinguia que espécie de flor era; mas fosse qual fosse, o principal era a história.”
(A flor anônima, Machado de Assis.)



A história que vou contar é fruto de muita fantasia. Fruto de um pé de poesia da plantação da Marta. Idílica mata de versos verdes que nascem sem se plantar. A Marta morreu, mas deixou suas sementes para os parentes poderem reflorestar seu terreno. Terreno que invadi, passando por entre dois farpados arames num exímio movimento de ombros, pernas e ancas. Terreno este que descobri estar baldio e no qual descobri uma planta no cio. Uma celebre flor numa sebe baixa.

Aquela flor era única, nunca havia visto igual. Era feita de um misto de todas as cores com toques de clareza. Pela aparência ainda floresceria mais, e, portanto, não valeria a pena arrancá-la. Deixei-a lá. Que beleza! Quando um homem se agacha diante de uma flor, célebre; pois ele se rendeu a natureza, sendo que o natural, nesses dias de fins, é quando se pisa sobre os jardins e nenhuma pegada se deixa. Saí dali, mas prometi, pra mim, voltar. Ainda não tinha conhecido o pé de poesia da Martinha, escondido atrás do fundo de lá…

Vivi dias de calendários. Dias que passaram árduos e dias que não passaram. Voltei àquela mata e não vi mais a celebre flor, mas achei uma árvore com cartas penduradas, cartas de amor, todas com o remetente à flor. As colhi. Levei-as pra casa, pra dentro de mim e depois fui a uma floricultura, a procura de suas respectivas donas. Porém, um buquê de flores vivas inexiste. Então desistí de entregar os envelopes àquelas defuntas rosas. Esperei a hora certa. Vivi horas de relógio. Horas que passaram juntas e horas que pararam. E passou o inverno e passou a Primavera. Chegou o verão e eu rasguei as cartas, pois não existe flor que saiba ler. Talvez aquela saiba. Mas talvez eu não retorne a vê-la. Por que talvez alguém já a colheu de lá daquela sebe.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O CACHORRO E O ELEFANTE:

Texto baseado em uma cena do longa metragem brasileiro: Árido Movie.

> http://www.youtube.com/watch?v=y-dAEIVRIbU <

De costas pra todos nós, havia um cachorro deitado com suas orelhas enormes. Nunca se ouviu um latido deste canino, tão pouco algum caso que ele tenha mordido alguém. Nunca se viu o fusinho dele, sabe-se que a espécie é vira-lata, no caso, um vira-pedra! Porque não há nenhum cão de raça nessa região Talvez de madrugada, esse saía pra fazer sua caçada e fique parado durante o dia somente pra não cair no bico de um carcará. Ou fique sempre parado na posição de costa e deitado, em uma postura subserviente. Cão de guarda. Não se sabe desde quando está ali daquele modo, com as patas dobradas. Já deve estar velho e cego. Mas cego mesmo são os jovens que não o enxergam ali na seca.

O rosto se desprende do chão pedregoso do sertão pernambucano. É uma pele quase da cor da terra. As suas rugas e cabelos longos sinalizavam sabedoria e mais ainda o seu olhar. Os seus olhos escuros, como seus cabelos de índio, eram lançados no horizonte cinzento e esbranquiçado da caatinga, onde não passava nem um pé de vento capaz de mexer uma mecha sequer daquele cabelo liso.

De costas pra nós, com um casaco da cor do solo, um homem branco que não vemos o rosto e não ouvimos a voz. A sós, no árido Nordeste, num clima de um filme de Clint Eastwood, os únicos seres humanos a um raio de quilômetros. Ermo. Flora deplorável. Fauna invisível. A voz do índio ressoa no eco do deserto que seria o inferno pra qualquer claustrofóbico. A sensação de solidão do sertanejo é agonizante, por isso, se cria companhias com os animais, se criam animais...

Uma brisa assovia, parecida com um uivo, e desse modo, denuncia todo silêncio do sertão. A mata branca é um tanto verde nesta época do ano. Choveu na estação anterior, a sábia cantou e o cantador entoou uma toada velha pra festejar. Agora resta um assovio do vento frio. Um arrepio na pele branca. Na cabeça dos dois, imagens demais. E eles imaginam a mesma coisa numa transmissão de pensamento fugaz: O sertão virou mar e o mar virou sertão. Foi uma alucinação! O chão era a água e um mamute, um elefante que não existe mais, atravessava seja lá o que for: rio, oceano ou igarapé. Submerso, afundado. A água até o meio dele cobre os olhos. A orelha sai, assim como a ponta da sua tromba torta, e de lado pra nós, parece caminhar. Pra onde será? Se mamutes nem existem mais? Não se sabe de onde veio esse animal! Mas se está lá, tem que ter vindo de algum lugar. Não é verdade?

E como os que conseguem transcender e imaginar a cara dos outros a ver seu corpo levitando eu sigo na cena. Levito. Porém, nem é preciso tamanha destreza com os pensamentos para ver o cachorro e o elefante. Eles não voam, não voarão. São somente pedras, e se você perder alguns conceitos e preconceitos vai ver que pedras não são só pedras, cachorros não só cachorros e elefantes não só elefantes. E afinal de contas quantas coisas não são coisas por falta de substantivos? Que nome se dá ao que não se sabe a forma, que significado se dá ao que não se pode ver?

NA BORDA DA XÍCARA:


Recuou-se ao papel para sentir a escrita em sua primordialidade. Manchou-o com a tinta preta da caneta; da mesma cor preta do pó de café que o aguardava na cozinha com sabor e excitação.


(Antes do café)


Tinha rabiscado a borda da folha com rabiscos disformes: setas, sublinhados, palavras em cima, em baixo, amontoadas umas sobre outras; algumas em destaque. Para que os destaques? No entremeio, seriam as eleitas, ou ainda candidatas entre as várias coisas pensadas pelas linhas do caderno de folhas enumeradas numa ordem só, na expectativa de uma brilhante gênese textual. Ele só não imaginava que podia haver belos textos fora do papel.


(Enquanto a água esquentava)


Botou pó de café no coador. No fogão a panela de alumínio transmitia seu calor para um líquido ainda insosso.

Depois disso, a mão se serviu de um pano para o processo de filtrar a solução para uma grande xícara, a maior delas – sua preferida. O que era sem gosto tomou cor e sabor na medida certa. Era tudo o que desejava.


(A xícara)


Os objetos inanimados assim continuavam; só a xícara se movia. Essa ida-e-vinda à boca lhe prometia a inspiração da vida. Ela até podia pensar pensamentos discretos e silenciosos. O rapaz não sabia disso. Aliás, essa possibilidade sequer passava pela sua cabeça, ele que estava tão atento em promover sua escrita.


E foi sem pronunciar nem uma palavra, uma onomatopéia que seja, que pensou o alado recipiente: “adoro quando o café quente esquenta meu corpo por dentro e quando o açúcar roça em tudo e fica no fundo, preguiçoso, aguardando uma gostosa mexida para se dissolver em doçuras. Aprecio quando os dedos se dão à minha asa e, como enamorados, passeamos juntos, de braços dados, em um conluio amoroso até o beijo dos lábios ávidos de sabor. Gosto quando as mãos apalpam delicadamente o contorno redondo de meu corpo e, nas noites frias, buscam o aconchego de minha pele aquecida. Lamento tão só os cafés que se esfriam em meu regaço, desprezados pela frieza da vida”.


(A melhor escrita)


Foram voltas e voltas procurando novas formas para sua escrita. Lia em voz alta, com entusiasmo, ressaltando as curvas dos traços imperfeitos. Achou, por fim, ter produzido no papel uma bela obra-prima. A xícara, em sua introspecção, não concordou. Nunca tinha ouvido tanta libertinagem na literariedade. Naquele momento, pretendeu ser um copo de pinga a uma xícara de café para ver se despertava algum lirismo dos bêbados naquele que havia deixado o café esfriar. Um pecado! Ele, demasiadamente empolgado com o texto, não enxergava a seu redor. A xícara sentia-se preterida em sua narrativa silenciosa. Queria ser novamente tocada, entendida, lida, pronunciada nos lábios. Absorto em si o rapaz esbarrou nela. Pedaços e lamentos; vingança no pé cortado.


(Grito final)


A boca sonhada em enlevo gritou: ”Merda de Xícara!”

Ao ouvir isso, um pensamento ainda restou no último agonizante pedaço de louça:

- De pensar morri burra...



* COLABORAÇÃO: Djalma Jacobina

sexta-feira, 27 de março de 2009

A AVENTURA DE UM NOTÍVAGO

Tive que ficar acordado para ver que na sombra da noite acontecem coisas.Quando as portas estão todas trancadas, os semáforos todos abertos, as esquinas, ruas, becos, avenidas, alamedas e travessas tornam-se todas iguais, como caminhos de um labirinto. Todos vazios transeuntes que perambulavam pelas calçadas, em plena claridade, vão se trancando em suas casas, gradualmente, até sobrarem somente os poucos aventureiros da madrugada, cheios de escuridão dentro do peito, porém bem acesos no topo do corpo. E quando digo isso não me refiro a aureolas, nem poderia. Neste momento os anjos também dormem. Nesta hora do dia já é outro dia. O começo:

O senhor veste seu terno azul marinho e por sobre ele o seu sobretudo preto, perfeitamente combinando com as calças e sapatos, e contrastando com tudo, aquele pedaço de pano branco em volta do pescoço. Que distinção! Um traje de gala! Ele é um homem a moda antiga. Já não trabalha do tanto que acumulou dinheiro. Seria um malandro vindo dos morros cariocas para Salvador, depois de fazer riqueza com o jogo do bicho? Não, não. Se o fosse usaria um chapéu que cobrisse a careca, um chapéu daqueles com uma tira preta e em volta e todinho branco. Olha só! Isso iria até combinar com a echarpe do velho. Contudo, ele estava muito elegante. E afinal, para aonde vai assim? Sozinho. Será que vai se encontrar com alguém? Uma viúva ou uma adúltera? Ou, ainda, outro alguém?

Pois bem, caminhando vagamente, sem pressa aparente, desce cada um dos degraus que os separam da rasteira imensidão. No bairro da Saúde, no centro da cidade, silêncio não se escuta. Da penumbra sempre saem sussurros de pessoas que agachadas se escondem de si mesmas. Mas ele não está nem aí, não está nem ali. Altivo, continua a caminhar embalado pela íngreme ladeira de sua rua, depois sobe desolado e cabisbaixo a Ladeira do Desterro. A boca de fumo vai bem, nem mesmo mais da meia noite o negócio fecha! Esse é o único comércio que funciona realmente 24horas. Porque emprega sem ser preciso segundo grau completo e paga mais do que um salário mínimo. Tudo isto foi o que o nosso notívago refletiu quando um menino, que tinha a idade de ser filho de seu filho, isso se ele tivesse algum filho, o perguntou: Alguma coisa tio?

Ele se sentiu mais velho, mais cético e mais mudo. Ficou pensando sobre sua saída e sobre sua vida. E eu não tenho permissão pra dizer o que pensara. Ao passar pelo quartel da Mouraria, encarou a sentinela, guarda noturno, dando seu plantão por obediência. Encarou-o nos olhos pra ver se ele cochilava, mas o soldado permanecia irredutível, incansável como um caçador, que há uma semana não apanha nem uma lebre sequer. Até a Avenida Joana Angélica aquele olhar parecia te seguir, tanto que quando dobrou a esquina, aliviou-se. Viu que ninguém vinha atrás. A pé o percurso é exaustivo, então na Praça da Piedade, o Senhor descansa, enquanto homens e mulheres dividem os seus pedaços de papelão e o melhor lugar dentro dos arredores da grade. Grades que servem, na verdade, para não depreciarem o patrimônio, no caso, o pomposo chafariz. Porém elas são como as portas da casa daquelas almas moribundas. A praça como sua residência e o chafariz, quando com água, o chuveiro.

Vagabundos como ele, após de certa idade, não tem medo de nada. Alguns cães latem e rosnam, sem abanar os rabos e com toda sua experiência o Senhor nem se mexe. Agora que o silêncio incide, ele recomeça a andar. Não ofega durante a travessia de uma praça a outra. Na Praça do Campo Grande decide usar o banheiro. Desiste. Como os cachorros mija num poste. Procura um bar. Procura um afago. Um carro para do seu lado e um rapaz oferece carona. Pergunta se precisa de ajuda. Ele responde: Sou sonâmbulo - com os olhos semicerrados e distantes dos seus próprios passos. O jovem sorri. Insiste na ideia:. - Vamos comigo, te levo pra casa! E se virando pra ele, elevando as sobrancelhas, o Senhor diz: Só se for pra uma casa com uma festa, garoto, por que a minha está mórbida.

E assim, os dois, sem nenhuma intimidade, vão juntos, primeiramente a um bar. Primeiramente era o planejado, contudo, foi unicamente. Eles ficaram até o amanhecer bebendo. O papo percorreu uma vida de amargura, melancólica, talvez muito mentirosa… Depois de álcool demais, não se faz discernimento do que sai pela boca. O rapaz já se sentia um menino diante das histórias daquele velho solitário e confortavelmente as ouvia. Depois de álcool demais, não se faz discernimento do que entra pelo ouvido. Mas tudo retorna à realidade quando chega à conta. A hora de pagar. O acordo foi complicado. Cada um com uma conta diferente. Conversa-se e os ébrios saem sem pagar uma pequena parte do todo. Convencem o dono do bar dizendo que são pai e filho comemorando anos de distanciamento. Perfeita mentira.

O velho sugere ir para outro bar para fazer o mesmo, e beber mais. O garoto não sabe como vai chegar vivo em casa, dirigindo daquele modo. Passando por outro bar, o Senhor o faz parar. Abre a porta do automóvel ainda em movimento, desce com sede, e nem sequer se despede. Somente fala: - Quero beber! Dando as costas vai entrando no lugar, mas lá muda de idéia em relação ao que vai matar a sua sede. Não deseja mais álcool quando vê aquela lindíssima mulher. Ela pede uma grande xícara de café preto. Ele a olha no fundo dos olhos, quando esta não estava olhando, como olhou a sentinela do quartel. E sem se dirigir a ninguém diz:" - A esta hora os acordados se dividem em duas categorias: os ainda e os já."