Tive que ficar acordado para ver que na sombra da noite acontecem coisas.Quando as portas estão todas trancadas, os semáforos todos abertos, as esquinas, ruas, becos, avenidas, alamedas e travessas tornam-se todas iguais, como caminhos de um labirinto. Todos vazios transeuntes que perambulavam pelas calçadas, em plena claridade, vão se trancando em suas casas, gradualmente, até sobrarem somente os poucos aventureiros da madrugada, cheios de escuridão dentro do peito, porém bem acesos no topo do corpo. E quando digo isso não me refiro a aureolas, nem poderia. Neste momento os anjos também dormem. Nesta hora do dia já é outro dia. O começo:
O senhor veste seu terno azul marinho e por sobre ele o seu sobretudo preto, perfeitamente combinando com as calças e sapatos, e contrastando com tudo, aquele pedaço de pano branco em volta do pescoço. Que distinção! Um traje de gala! Ele é um homem a moda antiga. Já não trabalha do tanto que acumulou dinheiro. Seria um malandro vindo dos morros cariocas para Salvador, depois de fazer riqueza com o jogo do bicho? Não, não. Se o fosse usaria um chapéu que cobrisse a careca, um chapéu daqueles com uma tira preta e em volta e todinho branco. Olha só! Isso iria até combinar com a echarpe do velho. Contudo, ele estava muito elegante. E afinal, para aonde vai assim? Sozinho. Será que vai se encontrar com alguém? Uma viúva ou uma adúltera? Ou, ainda, outro alguém?
Pois bem, caminhando vagamente, sem pressa aparente, desce cada um dos degraus que os separam da rasteira imensidão. No bairro da Saúde, no centro da cidade, silêncio não se escuta. Da penumbra sempre saem sussurros de pessoas que agachadas se escondem de si mesmas. Mas ele não está nem aí, não está nem ali. Altivo, continua a caminhar embalado pela íngreme ladeira de sua rua, depois sobe desolado e cabisbaixo a Ladeira do Desterro. A boca de fumo vai bem, nem mesmo mais da meia noite o negócio fecha! Esse é o único comércio que funciona realmente 24horas. Porque emprega sem ser preciso segundo grau completo e paga mais do que um salário mínimo. Tudo isto foi o que o nosso notívago refletiu quando um menino, que tinha a idade de ser filho de seu filho, isso se ele tivesse algum filho, o perguntou: Alguma coisa tio?
Ele se sentiu mais velho, mais cético e mais mudo. Ficou pensando sobre sua saída e sobre sua vida. E eu não tenho permissão pra dizer o que pensara. Ao passar pelo quartel da Mouraria, encarou a sentinela, guarda noturno, dando seu plantão por obediência. Encarou-o nos olhos pra ver se ele cochilava, mas o soldado permanecia irredutível, incansável como um caçador, que há uma semana não apanha nem uma lebre sequer. Até a Avenida Joana Angélica aquele olhar parecia te seguir, tanto que quando dobrou a esquina, aliviou-se. Viu que ninguém vinha atrás. A pé o percurso é exaustivo, então na Praça da Piedade, o Senhor descansa, enquanto homens e mulheres dividem os seus pedaços de papelão e o melhor lugar dentro dos arredores da grade. Grades que servem, na verdade, para não depreciarem o patrimônio, no caso, o pomposo chafariz. Porém elas são como as portas da casa daquelas almas moribundas. A praça como sua residência e o chafariz, quando com água, o chuveiro.
Vagabundos como ele, após de certa idade, não tem medo de nada. Alguns cães latem e rosnam, sem abanar os rabos e com toda sua experiência o Senhor nem se mexe. Agora que o silêncio incide, ele recomeça a andar. Não ofega durante a travessia de uma praça a outra. Na Praça do Campo Grande decide usar o banheiro. Desiste. Como os cachorros mija num poste. Procura um bar. Procura um afago. Um carro para do seu lado e um rapaz oferece carona. Pergunta se precisa de ajuda. Ele responde: Sou sonâmbulo - com os olhos semicerrados e distantes dos seus próprios passos. O jovem sorri. Insiste na ideia:. - Vamos comigo, te levo pra casa! E se virando pra ele, elevando as sobrancelhas, o Senhor diz: Só se for pra uma casa com uma festa, garoto, por que a minha está mórbida.
E assim, os dois, sem nenhuma intimidade, vão juntos, primeiramente a um bar. Primeiramente era o planejado, contudo, foi unicamente. Eles ficaram até o amanhecer bebendo. O papo percorreu uma vida de amargura, melancólica, talvez muito mentirosa… Depois de álcool demais, não se faz discernimento do que sai pela boca. O rapaz já se sentia um menino diante das histórias daquele velho solitário e confortavelmente as ouvia. Depois de álcool demais, não se faz discernimento do que entra pelo ouvido. Mas tudo retorna à realidade quando chega à conta. A hora de pagar. O acordo foi complicado. Cada um com uma conta diferente. Conversa-se e os ébrios saem sem pagar uma pequena parte do todo. Convencem o dono do bar dizendo que são pai e filho comemorando anos de distanciamento. Perfeita mentira.
O velho sugere ir para outro bar para fazer o mesmo, e beber mais. O garoto não sabe como vai chegar vivo em casa, dirigindo daquele modo. Passando por outro bar, o Senhor o faz parar. Abre a porta do automóvel ainda em movimento, desce com sede, e nem sequer se despede. Somente fala: - Quero beber! Dando as costas vai entrando no lugar, mas lá muda de idéia em relação ao que vai matar a sua sede. Não deseja mais álcool quando vê aquela lindíssima mulher. Ela pede uma grande xícara de café preto. Ele a olha no fundo dos olhos, quando esta não estava olhando, como olhou a sentinela do quartel. E sem se dirigir a ninguém diz:" - A esta hora os acordados se dividem em duas categorias: os ainda e os já."